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Momento de Mudanças - Entrevista com Maria Cláudia Kohler
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Publish-date-icon March 24, 2010
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EPISODE DESCRIPTION

Por Thiago José

Este mês os voluntas brasileiros foram surpreendidos com a notícia da saída de Maria Cláudia Kohler, Coordenadora de Voluntários do GP Brasil. MC, como é conhecida, coordenou os voluntários brasileiros por cerca três anos. Neste tempo em que ficou a frente do voluntariado no Greenpeace, ela foi responsável pela reestruturação dos grupos locais, propôs e participou de mudanças significativas, como a elaboração da política de voluntários da organização, com maior integração e envolvimento, conseguindo desta forma consolidar nosso trabalho. Trouxe mais força para os grupos e conseguiu reconhecimento pelo esforço e dedicação que empenhamos em nossas atividades.

MC fincou em SSA um exemplo de liderança, exercida com base no respeito e na busca de ideais comuns. Desejamos a ela sucesso na realização de seus projetos pessoais e profissionais. Os voluntas de Salvador se sentem órfãos de um membro importante para a organização.

Ao Pedro Torres, novo coordenador de voluntários, damos as boas vindas. A expectativa é de uma parceria ímpar, com a concretização do que já foi proposto pela gestão anterior e realização de novos projetos.

Maria Cláudia Kohler nos contou um pouco sobre o tempo em que esteve à frente do voluntariado no Greenpeace nesta entrevista.

GreenpeaceSSA | Como você encarou o desafiou de assumir a coordenação do GP Brasil?
Maria Cláudia Kohler | Cheguei no Greenpeace há três anos, em um momento de mudanças e questionamentos na minha vida, onde queria muito voltar a fazer coisas práticas, de vê-las de fato acontecer. Esse tempo passou rápido demais! Além de desafiante, foi sem dúvida uma experiência bastante gratificante. Minha vontade, naquele momento da minha vida, era de voltar a atuar em ONG, pois já havia trabalho nos demais setores – governo e empresa. Fui, entre outras coisas, professora por 12 anos e sentia que estava na hora de retornar ao movimento ambientalista ativamente, como já havia participado antes.

Ao ingressar no Green, por convite do Marcelo Furtado e do Frank, fui muitíssimo bem recebida por todos do escritório. Como já conhecia o pessoal, pois havia trabalho com Marcelo Marquesini para a CBD em 2006, no programa Kids for Forests, foi mais fácil. Neste programa envolvemos 10 jovens brasileiros, conheci equipes de outros escritórios, vi de perto como o Greenpeace trabalha e só tive saldo positivo!
Como sempre digo, o Greenpeace é muito legal de trabalhar, mas muito difícil também. Descobrir o caminho das pedras e por onde elas rolam, pode ser um trabalho árduo, sofrido e lento. Mas muitos ajudaram como Gui Leonardi, Mada, Rebs, Gabi, Tica, MM, Agnaldo, Carol, Edu, Fabiano, Dri Imparato e voluntários mais antigos, como Tânia, Rosi e outros.

Mas é legal contar que em 1985, quando ainda cursava faculdade de biologia no RJ, participava de uma ONG chamada Campanha Popular em Defesa da Natureza. A idealizadora desta ONG era uma senhora super engajada, militante e “mucho louca”, do movimento ambientalista, chamada Ruth Christie. Ela era alemã e morava no Brasil há muitos anos. Fazia parte da turma dos ambientalistas da época, como José Lutzemberg, Almirante Ibsen, Marcelo Ipanema, Magda Renner. Como ela tinha contato com o PV Alemanha e o Greenpeace na Alemanha, recebíamos por correio os panfletos das campanhas. Traduzíamos, datilografávamos, xerocávamos e panfletávamos em pontos da cidade. Era muito legal! .

Eu já admirava o Greenpeace, com as ações muito irreverentes para a época. Achava o máximo aqueles malucos cabeludos e corajosos se jogando na frente de navios e se pendurando. Eles já eram radicais e obstinados. Tinham ideologia e faziam a “máquina da mídia” ficar ligada no que eles faziam. Era muito bom!

O forte naquela época, década de 80, era campanha de tóxicos, poluição de rios e matança de baleias. No Brasil nem se falava em legislação ambiental, Cubatão era a cidade mais poluída do mundo e caçava-se baleia na Paraíba. Os dejetos das fábricas eram jogados sem tratamento nos rios e a poluição destes era infinitamente maior que hoje.

E foi assim, em tempos sem internet, celular e computador, que conseguimos parar com a caça da baleia na costa brasileira. Fazíamos vigília na praia do Arpoador e lobby com deputados, como Gastone Righi que acabou criando a Lei "Gastone Righi", proibindo em 1985 a caça às baleias no litoral brasileiro.
PARA SABER MAIS:
“ Nossas águas foram palco dessa atividade devastadora desde o século XVII. A caça artesanal estendeu-se do litoral sul da Bahia até a Paraíba.
O período industrial ocorreu depois da criação da COPESBRA, em 1910, uma empresa nipo-brasileira que detinha o monopólio da atividade. Sediada em Cabedelo, na Paraíba, a empresa operou em águas brasileiras até 1986, quando o presidente José Sarney sancionou a lei que proíbe a caça da baleia no litoral do Brasil.

Durante os seus 75 anos de atuação, a COPESBRA abateu cerca de 22.000 animais de todas as espécies, segundo os registros deixados pela empresa. Devido ao forte declínio das populações de baleias, a indústria sentiu-se forçada a regulamentar a caça ao redor do mundo, criando, em 1946, a Comissão Baleeira Internacional (CBI). Com o único objetivo de conservar as populações de baleias para que pudessem ser devidamente exploradas, a CBI criou um "efeito dominó": à medida que uma espécie rareava, partia-se para a caça de outra, até que todas foram sendo rapidamente dizimadas.” http://www.faunabrasil.com.br/sistema/modules/tiny8/index.php?id=15

GpSSA | O que mais te motivou a seguir em frente diante das adversidades encontradas na organização?
McKohler | Quando entrei, os sete grupos de voluntários estavam desestruturados e desarticulados já há alguns meses, com a doença e posterior morte do Emilio, que foi quem criou os grupos de voluntários. Ele era uma pessoa muito querida por todos e foi um impacto a perda dele. Os grupos estavam devagar, desmotivados e perdidos.

Acreditar é palavra de ordem para quem é ambientalista. Apesar da dificuldade e dos processo complexo, sempre acreditei na idéia do Greenpeace e que eu poderia contribuir de alguma maneira. Na vida sempre tive a oportunidade de trabalhar naquilo que acredito e gosto – ainda bem! Sem isso, não tenho motivação nem vejo sentido.

O time que encontrei era muito bom e isso tudo me motivou muito. Além de ser um trabalho desafiante e apaixonante! E também tinha o apoio da diretoria, o que era importante e muito bom. Foi um momento importante para consolidar os grupos. Espero que não desmontem este processo.

GpSSA | Pra você, que já trabalhou com governo e empresa privada, o que faz o trabalho em uma Organização Não Governamental ser diferente?
McKohler | Acho que o profissionalismo deve estar presente em qualquer espaço. Mas em ONG tem uma variante que é o compromisso. Não é o salário que te motiva, mas o desafio. Quem trabalha no terceiro setor tem um comprometimento diferente, acho eu. Você precisa estar envolvido com a causa. Acho que isso que é o grande desafio!

GpSSA| Após três anos de Greenpeace qual o balanço que você faz sobre o voluntariado na organização e os novos desafios assumidos a partir de agora pelo novo coordenador?
McKohler| Elaboramos a política de voluntários da organização, reescrevemos o lendário e polêmico manual de voluntário, estabelecemos a linha de comunicação dos coordenadores dos grupos de voluntários com o GP Brasil implementamos o calendário anual dos grupos, com reuniões mensais dos grupos e uma atividade por mês por cidade, envolvemos mais as campanhas nos grupos, integramos time de ação com voluntário, aumentando o número de ativistas, quebramos panelas e derrubamos pré-conceitos, integramos a reunião anual de coordenadores locais com os supervisores de DD – Diálogo Direto, inserimos VOLUNTÀRIO no planejamento da organização, inserimos uma coluna de voluntariado na revista do GP Brasil, fizemos a pesquisa sobre o perfil do voluntário, inserimos palestras e atividades em escolas nas atividades dos grupos e construímos a agenda comum entre Voluntário e DD. O desafio agora é continuar, manter este trabalho, e agregar ingredientes diferentes.

GpSSA| Qual o retorno que teve do seu trabalho junto aos voluntários do GP Brasil?
McKohler| Fiz muito amigos verdadeiros, aprendi MUITO com vocês! Podem ter certeza que aprendi muito mais com cada um de vocês do que vocês comigo. Verdade! Atitudes valem mais que o discurso teórico de alguns. Falar só bonito não basta para mudar. Me tornei, com certeza, um ser humano muito melhor após estes três anos, graças ao aprendizado que obtive com cada um de vocês.

Todas as homenagens que rolaram, toadas as manifestações, isso foi sincero! E é bonito ver isso, me emocionou muito. Fiquei de fato comovida, mas muito feliz! È importante saber que nada foi em vão, que o caminho estava certo, que de fato atingimos o que deveríamos e que envolvemos quem precisávamos. Essa é a verdadeira mudança. Com certeza ninguém mais é o mesmo depois destes três anos. Construímos juntos, e isso é o mais legal, mais fundamentado, pois não se desmonta facilmente. Não foi um trabalho imposto e sim construído, com vocês voluntários, com perfis diferentes de personalidades e cidades.
Até hoje, em todos os lugares onde trabalhei, deixei amigos e a porta sempre ficou aberta para voltar. Assim será com o Greenpeace!

GpSSA | Acredita ter deixado algum “legado” para os voluntários brasileiros?
McKohler | Acho que “legado” é forte. Talvez o legado tenha sido do Emilio, que iniciou isso tudo e acabou deixando a saúde de lado por se dedicar tanto. Todo mundo deixa uma marca, cada um deixa a sua, né? Deixei uma positiva, creio eu. E isso dá a sensação de dever cumprido, missão realizada. Claro que poderia ter feito mais, sim, sempre! Mas tiveram também questões estruturais e de orçamento limitado. Faz parte! De maneira geral, o saldo foi positivo, atendemos o que foi proposto.

GpSSA | O que esses anos em que esteve à frente da coordenação de voluntários trouxeram para sua vida profissional?
McKohler | Aprimorei o trabalho com projetos, apreendi novas ferramentas de trabalho de projeto e de gestão de pessoal, articulei com outras ONG´s nacionais e internacionais, enfim, aprendi a ter mais paciência também.

Vivenciei e confirmei que sem motivação e credibilidade não se coloca voluntário na rua, não se pendura banner, não se coleta 70 mil assinaturas, não se faz Open Boat, não se dá palestra em escolas, não se faz atividades sob sol, chuva ou ventania, não se passa perrengue juntos, não se dorme na delegacia, não se é fichado acha que tudo bem e ainda acha que, mesmo assim, valeu a pena.

Confirmei que sem acreditar no líder do grupo, não se troca a praia pela reunião no final de semana, ou a balada de sexta à noite pelo longo briefing de um campaigner animado para uma importante atividade no dia seguinte.

GpSSA | E para sua vida pessoal, esses anos de Greenpeace trouxeram muitas mudanças?
McKohler | Olha, foram três anos que me diverti muito e fui muito feliz. Conheci muita gente legal, enfrentamos desafios juntos e também me identificava com os ideais de todos. Mantive minha mente ligada na juventude e isso ajuda a te tornar uma pessoa feliz. Estes anos reforçaram o que eu já acreditava: Sem tesão, não se faz revolução!

GpSSA | Você faria algo diferente do que já fez até hoje?
McKohler| Hum, acho que não. Eu ainda quero ficar um tempo em uma aldeia indígena e sair velejando pelo mundo. Vontades que tenho e que se concretizarão algum dia!

GpSSA| Qual a mensagem que você deixa para aqueles que, assim como você acreditam na mudança, através da atuação, dedicação, companheirismo e sensibilização por uma causa?
McKohler| Acreditem sempre que cada um de vocês pode fazer a diferença. Acreditem nos sonhos de vocês, fiquem indignados, reclamem, busquem soluções. Participem. Não desistam, nunca!

Aprendi com vocês como se faz de verdade para termos um planeta melhor, mais solidário e voltado para o bem coletivo, pensando ainda nas próximas gerações. Agradeço muito, pois tenho filhos e quero ter netos também. Isso é único neste mundo individualista e egocêntrico, onde ter é mais que ser.
Obrigada, galera! E até breve; afinal, os caminhos de quem acredita que um outro mundo é possível sempre acabam se cruzando!

GpSSA| Conte um pouco sobre o grupo de Salvador e a suas impressões sobre ele.
McKohler | Pra mim, o grupo de SSA foi um bom desafio que deu muito certo. Lembro quando entrei no GP e o coordenador era o Gilmar. Mas ele não ficou. Depois veio a Lisiane, que também não ficou! Daí o Julio foi indicado como coordenador, eu não o conhecia, não sabia nada dele. Tudo isso aconteceu em dois meses. Não tinha gostado muito como ele tinha sido indicado, mas respeitei a decisão do grupo e dei credibilidade (vigiada! rsrs) para ele. O grupo de SSA tinha, naquela época, uma característica muito ruim de fazer fofoca. Era um grupo muito fofoqueiro! Muito chato isso, inclusive. No início pensamos inclusive em fechar o grupo de tão chato e fofoqueiro que era. (rsrs) Depois de muitas reuniões, o grupo foi se ajustando, amadurecendo e o Júlio ganhado minha confiança e mais espaço nas campanhas. Pra mim o grupo de SSA cresceu e se fortaleceu graças ao compromisso, maturidade e empenho do Júlio, que soube cativar as campanhas e buscar espaço dentro da organização.

Claro que neste processo de ficar mais perto, fortalecer e conhecer o grupo acabei indo várias vezes para SSA. Lembro de uma vez que tivemos uma reunião domingo as oito da matina, aquele sol; cheguei um pouco atrasada, pois desencontrei da voluntária que ia me buscar no hotel. Ao chegar à reunião, fiquei envergonhada, a sala da universidade estava cheia – mais de 30 voluntas. Fiquei emocionada! E fui tendo cada vez mais respeito por vocês. Vocês construíram este espaço e o coordenador local tem um papel forte nisso.

Hoje enxergo o grupo de SSA como um grupo forte, de bons amigos, responsáveis e capacitados. Vocês são criativos e podem explorar mais ainda isso. Um pouco mais de seriedade também não faz mal nenhum. É importante estimular o respeito entre vocês. Fiz amigos e amigas queridas no grupo e o Júlio, pessoalmente, se tornou um grande amigo!

Tornei-me amiga de muitos voluntários, é claro! Estabelecemos uma relação de confiança, respeito, carinho e muito bem querer. Não dá pra não se envolver. Dividimos tantas coisas. É uma relação de transparência e confiança!

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